sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

PARA VOCE.

É em tempos como estes que ela sente mais saudades dele.
Saudades dos momentos que tiveram… 
Saudades dos momentos bons e dos maus também (tudo fazia parte!). 
Sente saudades das conversas sem pé nem cabeça e das discussões que às vezes tinham. 
Sente saudades dos passeios, das duas vidas nada parecidas mas extremamente próximas, 
do sorriso que lhe estampava a face quando ele falava algo engraçado; da cara de raiva dele quando, mesmo sem querer, ela o irritava.
Saudades do contato intenso, único e todo errado que tinha com ele; das manhãs, tardes, noites e madrugadas; do ciúme dele, dos com fundamento e dos sem fundamento também; dos medos que ele apresentava e da maneira como ela cuidava deles. 
Saudades da forma como ele se preocupava com ela; s
audades da fraqueza dele, que dava a ela ânimo para ser forte; do primeiro beijo e do último também.
Saudades da vida que levavam, tão igual e tão desigual; de quando ele aparecia do nada e a fazia sorrir pelo simples fato de estar ali; do olhar intenso dele, e da maneira que ele dizia 
“bom dia” deixando o brilho nos olhos dela; das mãos dele nas dela, a da boca dela na dele. 
Saudades dos braços dela à procura dos dele e dos  braços dele procurando os dela.
Tem saudades dos planos que não fizeram, dos sonhos impossíveis que tentaram ver crescer. 
Sente saudades de tudo que se realizou e de tudo que não se realizou também; dos telefonemas antes de dormir, das  cartas com palavras doces, as palavras duras e a vontade de ser mais, ser diferente; 
da música que até hoje toca para lhe fazer sentir mais saudades. 
Saudades dos presentes no Natal e aniversários, da surpresa nos olhos dele.
Tem saudades dele ao seu lado, da presença dele nela mesmo que à distância; dele fazendo-a chorar e dela fazendo-o sorrir; de tudo o que viveram e do que não conseguiram viver. Saudades da mania dele de não saber amar que a fazia sentir-se a mulher mais amada do mundo;  da freqüência de um no outro, da forma de esquecer o mundo quando estavam juntos. Da maneira simples de ver a vida. Vida que não foi nada simples…
Tem saudades de ser dele, só dele e sempre dele; de pertencer inteiramente a ele, fazendo-lhe parte da  vida; de conhecer-lhe e acompanhar os passos; da história deles, a mais estranha que alguém já viveu e, certamente a mais complicada que Deus escreveu. 
Tem saudades do que contavam um para o outro, dos segredos que mantinham, que escondiam. Saudades do aniversário dele, e do  aniversário dela uma semana depois;
saudades do aniversário dos dois; do tempo deles, de cantar (mas cantar só para ele dentro do carro), saudade do café a cada manhã. 
Tem saudades do namoro escondido, onde só eram ela e ele; 
saudades do amor, dos encontros e dos desencontros.
Saudades de dizer “te amo para sempre”, “forever”; de estar com ele simplesmente por estar.  Saudades da amizade, da força e da confiança nela, neles.  
Sente saudades da voz, do carinho, da paixão, do desejo, das loucuras, do  talento; dele quando estava com ela e  dela quando estava com ele.
Saudades de um casamento que não aconteceu, mas foi quase real. 
Saudades dos filhos que não tiveram, mas cujos rostinhos sorridentes ela chegou a vislumbrar. Saudades da cama que não dividiram, mas onde esquentaram os lençóis hoje frios. 
Saudades do futuro que não viveram. 
Saudades dele. 
Só dele!
É em tempos como estes que ela sente mais saudades dele, pois se ele ainda fizesse parte de sua vida como fazia antes ela seria feliz de novo. 
De alguma forma ele ainda faz… 
Dizem por aí que todo “para sempre” tem um ponto final; 
entretanto, no dela, ela preferiu colocar reticências… 
Talvez por isso não tenha morrido de saudades.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

ALVORECER NA QUINTA DAS LAGRIMAS



Passada esta tão próspera vitória,
Tornado Afonso à Lusitana Terra,
A se lograr da paz com tanta glória
Quanta soube ganhar na dura guerra,
O caso triste e dino da memória,
Que do sepulcro os homens desenterra,
Aconteceu da mísera e mesquinha
Que despois de ser morta foi Rainha.

Tu, só tu, puro amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta morte sua,
Como se fora pérfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
É porque queres, áspero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano.

Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruito,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuito,
Aos montes insinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.

Do teu Príncipe ali te respondiam
As lembranças que na alma lhe moravam,
Que sempre ante seus olhos te traziam,
Quando dos teus fernosos se apartavam;
De noite, em doces sonhos que mentiam,
De dia, em pensamentos que voavam;
E quanto, enfim, cuidava e quanto via
Eram tudo memórias de alegria.

De outras belas senhoras e Princesas
Os desejados tálamos enjeita,
Que tudo, enfim, tu, puro amor, desprezas,
Quando um gesto suave te sujeita.
Vendo estas namoradas estranhezas,
O velho pai sesudo, que respeita
O murmurar do povo e a fantasia
Do filho, que casar-se não queria,

Tirar Inês ao mundo determina,
Por lhe tirar o filho que tem preso,
Crendo co sangue só da morte ladina
Matar do firme amor o fogo aceso.
Que furor consentiu que a espada fina,
Que pôde sustentar o grande peso
Do furor Mauro, fosse alevantada
Contra hûa fraca dama delicada?

Traziam-na os horríficos algozes
Ante o Rei, já movido a piedade;
Mas o povo, com falsas e ferozes
Razões, à morte crua o persuade.
Ela, com tristes e piedosas vozes,
Saídas só da mágoa e saudade
Do seu Príncipe e filhos, que deixava,
Que mais que a própria morte a magoava,

Pera o céu cristalino alevantando,
Com lágrimas, os olhos piedosos
(Os olhos, porque as mãos lhe estava atando
Um dos duros ministros rigorosos);
E despois, nos mininos atentando,
Que tão queridos tinha e tão mimosos,
Cuja orfindade como mãe temia,
Pera o avô cruel assi dizia:

(Se já nas brutas feras, cuja mente
Natura fez cruel de nascimento,
E nas aves agrestes, que somente
Nas rapinas aéreas tem o intento,
Com pequenas crianças viu a gente
Terem tão piedoso sentimento
Como co a mãe de Nino já mostraram,
E cos irmãos que Roma edificaram:

ó tu, que tens de humano o gesto e o peito
(Se de humano é matar hûa donzela,
Fraca e sem força, só por ter sujeito
O coração a quem soube vencê-la),
A estas criancinhas tem respeito,
Pois o não tens à morte escura dela;
Mova-te a piedade sua e minha,
Pois te não move a culpa que não tinha.

E se, vencendo a Maura resistência,
A morte sabes dar com fogo e ferro,
Sabe também dar vida, com clemência,
A quem peja perdê-la não fez erro.
Mas, se to assi merece esta inocência,
Põe-me em perpétuo e mísero desterro,
Na Cítia fria ou lá na Líbia ardente,
Onde em lágrimas viva eternamente.

Põe-me onde se use toda a feridade,
Entre leões e tigres, e verei
Se neles achar posso a piedade
Que entre peitos humanos não achei.
Ali, co amor intrínseco e vontade
Naquele por quem mouro, criarei
Estas relíquias suas que aqui viste,
Que refrigério sejam da mãe triste.)

Queria perdoar-lhe o Rei benino,
Movido das palavras que o magoam;
Mas o pertinaz povo e seu destino
(Que desta sorte o quis) lhe não perdoam.
Arrancam das espadas de aço fino
Os que por bom tal feito ali apregoam.
Contra hûa dama, ó peitos carniceiros,
Feros vos amostrais e cavaleiros?

Qual contra a linda moça Polycena,
Consolação extrema da mãe velha,
Porque a sombra de Aquiles a condena,
Co ferro o duro Pirro se aparelha;
Mas ela, os olhos, com que o ar serena
(Bem como paciente e mansa ovelha),
Na mísera mãe postos, que endoudece,
Ao duro sacrifício se oferece:

Tais contra Inês os brutos matadores,
No colo de alabastro, que sustinha
As obras com que Amor matou de amores
Aquele que despois a fez Rainha,
As espadas banhando e as brancas flores,
Que ela dos olhos seus regadas tinha,
Se encarniçavam, fervidos e irosos,
No futuro castigo não cuidosos.

Bem puderas, ó Sol, da vista destes,
Teus raios apartar aquele dia,
Como da seva mesa de Tiestes,
Quando os filhos por mão de Atreu comia !
Vós, ó côncavos vales, que pudestes
A voz extrema ouvir da boca fria,
O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,
Por muito grande espaço repetistes.

Assi como a bonina, que cortada
Antes do tempo foi, cândida e bela,
Sendo das mãos lacivas maltratada
Da minina que a trouxe na capela,
O cheiro traz perdido e a cor murchada:
Tal está, morta, a pálida donzela,
Secas do rosto as rosas e perdida
A branca e viva cor, co a doce vida.

As filhas do Mondego a morte escura
Longo tempo chorando memoraram,
E, por memória eterna, em fonte pura
As lágrimas choradas transformaram.
O nome lhe puseram, que inda dura,
Dos amores de Inês, que ali passaram.
Vede que fresca fonte rega as flores,
Que lágrimas são a água e o nome Amores.



Episódio de Dona Inês de Castro
(Os Lusíadas, Canto III, 118 a 135) 

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

PRAÇA DAS SAGRADAS FAMILIAS: Lacerda,Alves,Rodrigues,Duarte,Lopes,Dreier,Chaves,Thommen,Phiton,Lourenço,Rocha,Sousa.



E TODOS OS MEUS LEITORES ANONIMOS, (QUE SÃO TANTOS!),ESPALHADOS PELO MUNDO.



Pracinha da Familia

Deus está nos detalhes.

Porteira para a Paz.

JARDIM DOS SEGREDOS.

Onde a cacatua dorme...

um dos amigos.

jardim de Rara,Hannah,Luan,Dudu,Isabela,Paulo e Luan,Jackeline,Jarbas,Natan,Vida,Tainá,Carley e Hannah

Amigas falantes
o amigo mais fiel e calmo.

fonte aGIL!

simbolo de força e persistencia.

jardim dos SEGREDOS.

a arara que descansa na mangueira

um lampião de gás

o meu anjo para voces.
A rosa que jamais sera esquecida.











detalhes do jardim dos Segredos.

Até no agreste nascem tão lindas flores! Cactus.

cravos de Ilda e Almir.

flores,para que venham os colibris.

que maravilha!

E uma rede preguiçosa pra deitar.

E flores com cores da realeza.

Que o meu mensageiro do vento, leve sempre uma brisa de paz a voces e não se preocupem comigo;
Princesa na Europa,ou Plebéia no Brasil, eu estarei sempre, onde a ventura mora.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011



SAUDADE DOI

Trancar o dedo numa porta dói.

Bater com o queixo no chão dói.
Torcer o tornozelo dói.
Um tapa, um soco, um pontapé, doem.
Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua,
dói cólica, cárie e pedra no rim.
Mas o que mais dói é a saudade.
Saudade de um irmão que mora longe.

Saudade de uma cachoeira da infância.
Saudade de um filho que estuda fora.
Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais.
Saudade do pai que morreu, do amigo imaginário que nunca existiu.
Saudade de uma cidade.
Saudade da gente mesmo, que o tempo não perdoa.
Doem essas saudades todas.

Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama.

Saudade da pele, do cheiro, dos beijos.
Saudade da presença, e até da ausência consentida.
Você podia ficar na sala e ela no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá.
Você podia ir para o dentista e ela para a faculdade, mas sabiam-se onde.
Você podia ficar o dia sem vê-la, ela o dia sem vê-lo, mas sabiam-se amanhã.
Contudo, quando o amor de um acaba, ou torna-se menor,
Ou quando alguém ou algo não deixa que esse amor siga,
Ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.
Saudade é basicamente não saber.
Não saber mais se ela continua fungando num ambiente mais frio.
Não saber se ele continua sem fazer a barba por causa daquela alergia.
Não saber se ela ainda usa aquela saia.
Não saber se ele foi na consulta com o dermatologista como prometeu.
Não saber se ela tem comido bem por causa daquela mania
de estar sempre ocupada;
se ele tem assistido às aulas de inglês,
se aprendeu a entrar na Internet
e encontrar a página do Diário Oficial;
se ela aprendeu a estacionar entre dois carros;
se ele continua preferindo Malzebier;
se ela continua preferindo suco;
se ele continua sorrindo com aqueles olhinhos apertados;
se ela continua dançando daquele jeitinho enlouquecedor;
se ele continua cantando tão bem;
se ela continua detestando o MC Donald's;
se ele continua amando;
se ela continua a chorar até nas comédias.

Saudade é não saber mesmo!

Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos;
não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento;
não saber como frear as lágrimas diante de uma música;
não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.
Saudade é não querer saber se ela está com outro, e ao mesmo tempo querer.
É não saber se ele está feliz, e ao mesmo tempo perguntar a todos os amigos por isso...
É não querer saber se ele está mais magro, se ela está mais bela.
Saudade é nunca mais saber de quem se ama, e ainda assim doer;

Saudade é isso que senti enquanto estive escrevendo e o que você,

provavelmente, está sentindo agora depois que acabou de ler...
Miguel Falabella

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

REFLITAM, AMADOS LEITORES...

Maiakovski, poeta russo “suicidado” após a revolução de Lenin, escreveu ainda no início do século XX:
Na primeira noite, eles se aproximam e colhem uma flor de nosso jardim. E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem, pisam as flores, matam nosso cão. E não dizemos nada.
Até que um dia, o mais frágil deles, entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada.
Depois de Maiakovski, Bertold Brecht (1898-1956) escreveu:
Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.
Depois de um tempo, Martin Niemöller, símbolo da resistência aos nazistas, escreveu também:
Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu.
Como não sou judeu, não me incomodei.

No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista.
Como não sou comunista, não me incomodei.

No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico.
Como não sou católico, não me incomodei.

No quarto dia, vieram e me levaram;
já não havia mais ninguém para reclamar…
Mais recentemente, em 2007, foi a vez de Cláudio Humberto:
Primeiro eles roubaram nos sinais, mas não fui eu a vítima.
Depois incendiaram os ônibus, mas eu não estava neles.
Depois fecharam ruas, onde não moro.
Fecharam então o portão da favela, que não habito.
Em seguida arrastaram até a morte uma criança, que não era meu filho…

sábado, 29 de janeiro de 2011

O BUSCADOR

 
Um dia, o buscador sentiu que devia ir à cidade de Kammir. Ele aprendeu a dar importância para estas sensações que vinham de um lugar desconhecido de si mesmo, assim deixou tudo e partiu.

Depois de dois dias de caminhada por caminhos poeirentos, ao longe avistou, Kammir. Um pouco antes de chegar ao povoado, uma colina à direita do caminho chamou muito a atenção. Estava coberta por um verde maravilhoso e havia uma porção de árvores, pássaros e flores encantadoras; rodeada por completo por uma espécie de vala pequena de madeira lustrada.

Uma portinhola de bronze o convidava a entrar. Logo, sentiu que esquecera o povoado e sucumbiu à tentação de descansar por um momento naquele lugar. O buscador traspassou o portal e começou a caminhar lentamente entre as pedras brancas que estavam distribuídas como por acaso, entre as árvores. Deixou que seus olhos pousassem como borboletas em cada detalhe deste paraíso colorido. Seus olhos eram os de um buscador, e talvez por isso, descobriu, sobre uma das pedras, aquela inscrição:

Abedul Tareg, viveu 8 anos, 6 meses, 2 semanas e 3 dias.

Surpreendeu-se um pouco ao perceber que essa pedra não era simplesmente uma pedra, era uma lápide. Sentiu pena ao pensar que uma criança de idade tão curta estava enterrada naquele lugar. Olhando a seu redor, o homem percebeu que a pedra ao lado também tinha uma inscrição. Aproximou-se para lê-la, dizia:

Yamir Kalib, viveu 5 anos, 8 meses e 3 semanas.

O buscador sentiu-se terrivelmente comovido. Aquele belo lugar era um cemitério e cada pedra, uma tumba. Uma por uma, começou a ler as lápides. Todas tinham inscrições similares: um nome e o tempo de vida exato do morto. Mas o que conectou com o espanto foi comprovar que o que viveu mais tempo mal passara dos 11 anos... Embargado por uma dor terrível sentou-se e começou a chorar.

O zelador do cemitério passava por ali e aproximou-se. O viu chorar por um tempo em silêncio e depois perguntou se ele chorava por algum familiar.

Não, nenhum familiar, disse o buscador. O que acontece com este povoado, que coisa tão terrível há nesta cidade? Por que tantas crianças mortas enterradas neste lugar? Qual é a horrível maldição que pesa sobre esta gente que a obrigou a construir um cemitério de crianças?

O ancião sorriu e disse:


O senhor pode acalmar-se. Não há tal maldição. Acontece que aqui tínhamos um velho costume. Vou lhe contar. Quando um jovem cumpre quinze anos seus pais lhe presenteiam com uma caderneta, como esta que tenho aqui, pendurada no pescoço. E é tradição entre nós que a partir dali, cada vez que desfrutamos intensamente de algo, abrimos a caderneta e anotamos nela:

À esquerda, o que foi desfrutado…
À direita, quanto tempo durou o gozo.

Conheceu a sua namorada e se apaixonou por ela. Quanto tempo durou essa paixão enorme e o prazer de conhecê-la? Uma semana? Duas? Três semanas e meia?... E depois... a emoção do primeiro beijo, o prazer maravilhoso do primeiro beijo, quanto durou? Um minuto e meio de beijo? Dois dias? Uma semana?...
E a gravidez ou nascimento do primeiro filho...?
E o casamento dos amigos…?
e a viagem mais desejada…?
e o encontro com o irmão que voltou de um país distante…?
Quanto tempo durou o desfrutar dessas situações?…
horas? Dias?…

Assim vamos anotando na caderneta cada momento que desfrutamos... cada momento.

Quando alguém morre, é nosso costume, abrir sua caderneta e somar o tempo de desfrute, para escrever em sua tumba, porque esse é para nós, o único e verdadeiro tempo vivido. 
 
Jorge Bucay
A mim enviado pela minha irmã,Pati.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

TRES DIAS PARA VER.

Varias vezes, pensei que seria uma bênção se todo ser humano, de repente, ficasse cego e surdo por alguns dias no princípio da vida adulta. 
As trevas o fariam apreciar mais a visão, e o silêncio lhe ensinaria as alegrias do som.
De vez em quando, testo meus amigos que enxergam para descobrir o que eles vêem. Há pouco tempo, perguntei a uma amiga que voltava de um longo passeio pelo bosque o que ela observara. “Nada de especial” foi a resposta.
Como é possível, pensei, caminhar durante uma hora pelos bosques e não ver nada digno de nota? 
Eu, que não posso ver, apenas pelo tato, encontro centenas de objetos que me interessam. Sinto a delicada simetria de uma folha. Passo as mãos pela casca lisa de uma pétala ou pelo tronco áspero de um pinheiro. Na primavera, toco os galhos das árvores na esperança de encontrar um botão, o primeiro sinal da natureza despertando após o sono do inverno. Por vezes, quando tenho muita sorte, pouso suavemente a mão numa arvorezinha e sinto o palpitar feliz de um pássaro cantando.
Às vezes, meu coração anseia por ver tudo isso. Se consigo ter tanto prazer com um simples toque, quanta beleza poderia ser revelada pela visão! E imaginei o que mais gostaria de ver se pudesse enxergar, digamos, por apenas três dias.

Eu dividiria esse período em três partes. No primeiro dia, gostaria de ver as pessoas cujas bondade e companhia fizeram minha vida valer a pena. Não sei o que é olhar dentro do coração de um amigo pelas “janelas da alma”, os olhos. Só consigo “ver” as linhas de um rosto por meio das pontas dos dedos. Posso perceber o riso, a tristeza e muitas outras emoções. Conheço meus amigos pelo que toco em seus rostos.
Como deve ser mais fácil e muito mais satisfatório para você, que pode ver, perceber, num instante, as qualidades essenciais de outra pessoa ao observar as sutilezas de sua expressão, o tremor de um músculo, a agitação das mãos. 
Mas será que já lhe ocorreu usar a visão para perscrutar a natureza íntima de um amigo? 
Será que a maioria de vocês que enxergam não se limita a ver por alto as feições externas de uma fisionomia e se dar por satisfeita? Por exemplo, você seria capaz de descrever com precisão o rosto de cinco bons amigos? 
Como experiência, perguntei a alguns maridos qual a exata cor dos olhos de suas mulheres, e muitos deles confessaram, encabulados, que não sabiam.
Ah, tudo o que eu veria se tivesse o dom da visão por apenas três dias!
O primeiro dia seria muito ocupado. 
Eu reuniria todos os meus amigos queridos e olharia seus rostos por muito tempo, imprimindo em minha mente as provas exteriores da beleza que existe dentro deles. Também fixaria os olhos no rosto de um bebê, para poder ter a visão da beleza ansiosa e inocente que precede a consciência individual dos conflitos que a vida apresenta. Gostaria de ver os livros que já foram lidos para mim e que me revelaram os meandros mais profundos da vida humana. E gostaria de olhar nos olhos fiéis e confiantes de meus cães, o pequeno scottish terrier e o vigoroso dinamarquês.
À tarde, daria um longo passeio pela floresta, intoxicando meus olhos com belezas da natureza. E rezaria pela glória de um pôr-do-sol colorido. Creio que, nessa noite, não conseguiria dormir.
 No dia seguinte, eu me levantaria ao amanhecer para assistir ao empolgante milagre da noite se transformando em dia. Contemplaria, assombrada, o magnífico panorama de luz com que o Sol desperta a Terra adormecida. Esse dia, eu dedicaria a uma breve visão do mundo, passado e presente. Como gostaria de ver o desfile do progresso do homem, visitaria os museus. Ali, meus olhos veriam a história condensada da Terra — os animais e as raças dos homens em seu ambiente natural; gigantescas carcaças de dinossauros e mastodontes que vagavam pelo planeta antes da chegada do homem, que, com sua baixa estatura e seu cérebro poderoso, dominaria o reino animal.
Minha parada seguinte seria o Museu de Artes. Conheço bem, pelas minhas mãos, os deuses e as deusas esculpidos da antiga terra do Nilo. 
Já senti, pelo tato, as cópias dos frisos do Paternon e a beleza rítmica do ataque dos guerreiros atenienses. As feições nodosas e barbadas de Homero me são caras, pois também ele conheceu a cegueira.
Assim, nesse meu segundo dia, tentaria sondar a alma do homem por meio de sua arte. Veria, então, o que conheci pelo tato. Mais maravilhoso ainda, todo o magnífico mundo da pintura me seria apresentado. Mas eu poderia ter apenas uma impressão superficial. Dizem os pintores que, para se apreciar a arte, real e profundamente, é preciso educar o olhar. É preciso, pela experiência, avaliar o mérito das linhas, da composição, da forma e da cor. Se eu tivesse a visão, ficaria muito feliz por me entregar a um estudo tão fascinante.
A noite do meu segundo dia seria passada no teatro ou no cinema. Como gostaria de ver a figura fascinante de Hamlet ou o tempestuoso Falstaff no colorido cenário elisabetano! Não posso desfrutar da beleza do movimento rítmico, senão numa esfera restrita ao toque de minhas mãos. Só posso imaginar vagamente a graça de uma bailarina, como Pavlova, embora conheça algo do prazer do ritmo, pois, muitas vezes, sinto o compasso da música vibrando através do piso. Imagino que o movimento cadenciado seja um dos espetáculos mais agradáveis do mundo. Entendi algo sobre isso, deslizando os dedos pelas linhas de um mármore esculpido; se essa graça estática pode ser tão encantadora, deve ser mesmo muito mais forte a emoção de ver a graça em movimento
Na manhã seguinte, ávida por conhecer novos deleites, novas revelações de beleza, mais uma vez receberia a aurora. Hoje, o terceiro dia, passarei no mundo do trabalho, nos ambientes dos homens que tratam do negócio da vida. A cidade é o meu destino. Primeiro, paro numa esquina movimentada, apenas olhando para as pessoas, tentando, por sua aparência, entender algo sobre seu dia-a-dia. 
Vejo sorrisos e fico feliz. 
Vejo uma séria determinação e me orgulho. 
Vejo o sofrimento e me compadeço.
Caminhando pela 5ª Avenida, em Nova York, deixo meu olhar vagar, sem se fixar em nenhum objeto em especial, vendo apenas um caleidoscópio fervilhando de cores. Tenho certeza de que o colorido dos vestidos das mulheres movendo-se na multidão deve ser uma cena espetacular, da qual eu nunca me cansaria. 
Mas, talvez, se pudesse enxergar, eu seria como a maioria das mulheres — interessadas demais na moda para dar atenção ao esplendor das cores em meio à massa.
Da 5ª Avenida, dou um giro pela cidade — vou aos bairros pobres, às fábricas, aos parques onde as crianças brincam. Viajo pelo mundo, visitando os bairros estrangeiros. E meus olhos estão sempre bem abertos, tanto para as cenas de felicidade quanto para as de tristeza, de modo que eu possa descobrir como as pessoas vivem e trabalham e compreendê-las melhor. 
Meu terceiro dia de visão está chegando ao fim. Talvez, haja muitas atividades a que devesse dedicar as poucas horas restantes, mas acho que, na noite desse último dia, vou voltar depressa a um teatro e ver uma peça cômica, para poder apreciar as implicações da comédia no espírito humano.
À meia-noite, uma escuridão permanente outra vez se cerraria sobre mim. 
Claro, nesses três curtos dias, eu não teria visto tudo o que queria ver. 
Só quando as trevas descessem de novo é que me daria conta do quanto eu deixei de apreciar.
Talvez, este resumo não se adapte ao programa que você faria se soubesse que estava prestes a perder a visão. Mas sei que, se encarasse esse destino, usaria seus olhos como nunca usara antes. Tudo quanto visse lhe pareceria novo. 
Seus olhos tocariam e abraçariam cada objeto que surgisse em seu campo visual. 
Então, finalmente, você veria de verdade, e um novo mundo de beleza se abriria para você.
Eu, que sou cega, posso dar uma sugestão àqueles que vêem: 
usem seus olhos como se amanhã fossem perder a visão. 
E o mesmo se aplica aos outros sentidos. 
Ouçam a música das vozes, o canto dos pássaros, os possantes acordes de uma orquestra, como se amanhã fossem ficar surdos. Toquem cada objeto como se amanhã perdessem o tato. 
Sintam o perfume das flores, saboreiem cada bocado, como se amanhã não mais sentissem aromas nem gostos. 
Usem ao máximo todos os sentidos; gozem de todas as facetas do prazer e da beleza que o mundo lhes revela pelos vários meios de contato fornecidos pela natureza. 
Mas, de todos os sentidos, estou certa de que a visão deve ser o mais delicioso.


por Helen Keller






(publicado na Selecções Reader's Digest há 70 anos)
 Extraido do LAGASH