domingo, 3 de abril de 2011

DESCULPEM, EU NÃO SOU UM ROBÔ.

Boa tarde, Queridos e amados Leitores:
Vocês sabem que raramente, posto as minhas opiniões pessoais neste espaço, deixando-o como prometi a todos,apenas para os meus devaneios. 
Claro que adoro copiar; pois adoro reproduzir tudo que me fez feliz um dia, especialmente lendas, contos, poemas, livros enfim...Textos que eu ingenuamente pensei um dia,que jamais fosse encontrar de novo e que graças a esta máquina maravilhosa, consegui;apesar de ter guardado em minha primorosa memoria, milhares de poemas e letras de músicas que amava, além claro, das pessoas que me foram preciosas em certas épocas da minha vida.
Acontece que esta mesma memoria de que falo, anda meio atordoada agora.
Esta semana, li declarações de uma artista brasileira, revoltada por ter sido ofendida em sua condição de preta, gorda e gay.
Ora, nós estamos ou não vivendo em uma democracia?
Com esta historia de preconceito, tão recente nessa sociedade moderna, me sinto como se estivéssemos vivendo tempos de Hitler.
Claro que eu não tenho nenhum tipo de preconceito hoje. Mas confesso que tive que passar por inúmeras terapias para não tê-los.
Eu aqui, fui criada em uma família extremamente rigorosa e preconceituosa. Educada em uma igreja - Congregação Cristã no Brasil - onde não podia ouvir radio, ver televisão, cantar musica que não fosse especialmente daquela igreja - musica mundana - aparar as pontas do cabelo, usar roupas sem manga, mostrar os joelhos. TUDO ISTO ERA PECADO SEM PERDÃO. 
Homossexualismo era doença ou um conjunto de espíritos malignos que havia se apossado daquele fraco ser e que o levaria diretamente ao fogo do inferno.
Minha avó, alva como a neve, odiava negros e ensinou isto a meu pai também, que consequentemente, tentou passar para nós,não conseguindo apenas porque nos rebelamos muito depois de adultas.
Uma das minhas irmãs na infancia,um dia perguntou ao meu pai se ele chegasse no céu e Deus fosse negro,o que ele faria. Ele,sem titubear respondeu: volto da porta. Só sobre esses dois temas, vou falar agora, porque o tema da semana, me trouxe tudo isto à mente.
Bem, agora, o que me ensinaram que eram demónios, ou doença,
já passou a preferência sexual entre tantos adjectivos lindos que criaram.Tudo é normal. Já pode tudo e tudo é normal e ai de quem ouse pensar diferente.É chave de cadeia!.
A igreja, que dizia que CPF era o sinal da besta, que proibia TV, Radio, musicas... hoje conta com um site na Internet, canta as tais canções gospel ao invés de hinos evangélicos e as moças desfilam nas igrejas como sereias,maquiadas, cabelos bem aparados,roupas marcando até a alma,se passam por evangélicos,gospel, foi uma quantidade enorme de nomes que criaram para "maquiar" a frase que usávamos quando crianças:
Eu sou crente.
Sinceramente, eu não suporto mais esses pastores nervosos gritando o dia inteiro em centenas de emissoras, esses padres cantores,que na verdade,se esquecem de falar da palavra de Deus.Eu espero que o que diz a Biblia..."importa que o evangelho seja pregado",
se concretize.Porque é cada estilo de pastor,padre e cantores,que me causam nojo! Pra mim,absoluto desrespeito à palavra de Deus. 
Foi o que aprendí.
Sei que de repente,ou antes que eu crescesse, tudo mudou.
O mundo deu um salto e essa gente toda, 
homo,bi,preta,padre,pastor,pai, pensam que eu sou um robô, que eles podem injectar informações assim em 2 décadas e que eu tenho que APAGAR sob pena de ser presa, criminosa, tudo que me ensinaram uma vida inteira.
E a minha igreja,onde foi parar? e o pecado,também mudou? E os 7,14,21 demónios? será que se transformaram em anjos negros, para ficar mais poético?
É.porque tudo mudou de nome.Mas eu não tenho obrigação e nem deveria ser obrigada a pensar da forma que esta geração perversa quer que eu pense. Eu fui criada em uma ditadura espiritual e por mais moderninha que tenha tentado ser e na verdade sou, não queiram obrigar a todas as pessoas a acharem que é normal, 
o que passaram a vida inteira aprendendo que nos levaria ao inferno.
Confesso que procurei tirar proveito de tudo de bom que a vida me deu. Na igreja, aprendi cantar, tocar órgão, decorar poemas, tocar hinos no violão...muita coisa boa. Mas la me fizeram uma lavagem cerebral,da qual ainda não consegui me livrar completamente.
Pra mim, muita coisa ainda é pecado até hoje e isto, atrapalhou toda a minha vida profissional, emocional, afectiva. Confesso que ainda levo culpas enormes por muita coisa que todo mundo já acha normal.
SOCORRO!!!...
Eu não sou um robô. Eu não sou programável.
E confesso, só não sou muito preconceituosa hoje, porque passei a minha vida, lutando por meus ideais de liberdade. Lutei contra família e Igreja para ser considerada normal hoje pela sociedade.
CLEMENCIA homos, bis,negros,índios,pelos que receberam ao longo da vida educação totalmente preconceituosa.
Quem sabe este texto já não seja de teor preconceituoso!!!
A mim, pouco importa. 
MATEM quem me ensinou que tudo era PECADO.
Matem seus pastores, seus pais, seus avós e não a nós.
Não se esqueçam dos excluídos... dos que tem fome, sede, dor,desespero...
Processem os responsaveis pela dor fisica e espiritual de tanta gente,se é que isto é possivel, se é que existe lei pra isto.
Se você se sente feliz sendo preta, gay,negra, não queira obrigar que todos pensem assim. Os considerados "normais", sofrem de outras formas de preconceito pelo mundo todos os dias de suas vidas.
seja você feliz, como é, já que eu penso que felicidade é genética, tente se aceitar. 
PORQUE EU NÃO SOU ROBÔ.EU SOU GENTE MAL EDUCADA.
Abraços afetuosos de verdade... a todos
Respeitando o espaço de cada um no universo.

terça-feira, 22 de março de 2011


As palavras são boas.

As palavras são más.

As palavras ofendem.

As palavras pedem desculpas.
As palavras queimam.

As palavras acariciam.
As palavras são dadas, trocadas, oferecidas,
vendidas e inventadas.

As palavras estão ausentes.
Algumas palavras sugam-nos, não nos largam...
As palavras aconselham, sugerem, insinuam,
ordenam, impõem, segregam, eliminam.

São melífluas ou azedas.

O mundo gira sobre palavras lubrificadas
com óleo de paciência.

Os cérebros estão cheios de palavras que vivem em boa paz com as suas
contrárias e inimigas.

Por isso as pessoas fazem o contrário do que pensam,

julgando pensar o que fazem.

Há muitas palavras.
E há osdiscursos, que são palavras encostadas
umas às outras, em equilíbrio instável graças
a uma precária sintaxe, até ao prego final do
Disse ou Tenho dito.

Com discursos se comemora,
se inaugura, se abrem e fecham sessões, se
lançam cortinas de fumo ou dispõem bambinelas
de veludo.

São brindes, orações, palestras e conferências.

Pelos discursos se transmitem louvores, agradecimentos, programas e fantasias.

E depois as palavras dos discursos aparecem deitadas
em papéis, são pintadas de tinta de impressão - e por
essa via entram na imortalidade do Verbo.

E as palavras escorrem tão fluidas como o
"precioso líquido".

Escorrem interminavelmente,
alagam o chão, sobem aos joelhos,
chegam à cintura, aos ombros, ao pescoço.
É o dilúvio universal, um coro desafinado
que jorra de milhões de bocas.

A terra segue o seu caminho envolta num clamor de loucos,

aos gritos,aos uivos, envoltos também num murmúrio manso,
represo e conciliador...

E tudo isso atordoa as estrelas e perturba as comunicações,

como as tempestades solares.

Porque as palavras deixaram de comunicar.
Cada palavra é dita para que se não ouça outra
palavra.

A palavra, mesmo quando não afirma, afirma-se.

A palavra não responde nem pergunta: amassa.

A palavra é a erva fresca e verde que cobre os dentes do pântano.

A palavra é poeira nos olhos e olhos furados.

A palavra não mostra.
A palavra disfarça.

Daí que seja urgente moldar as palavras para que a sementeira se mude em
seara.

Daí que as palavras sejam instrumento
de morte - ou de salvação.

Daí que a palavra só valha
o que valer o silêncio do ato.

Há também o silêncio.
O silêncio, por definição, é o que não se ouve.
O silêncio escuta, examina, observa, pesa e analisa.
O silêncio é fecundo. O silêncio é a terra negra e fértil,
o húmus do ser, a melodia calada sob a luz solar.
Caem sobre ele as palavras. Todas as palavras.
As palavras boas e as más.

O trigo e o joio.
Mas só o trigo dá pão.

José Saramago.

segunda-feira, 14 de março de 2011

PARTIR...CAMINHAR...



Partir é, antes de tudo,
sair de si, romper a crosta de egoísmo que tende a aprisionar-nos no próprio eu.
Partir é não rodar, permanentemente, em torno de si, numa atitude de quem, na prática, se constitui no centro do mundo e da vida.
Partir não é rodar apenas em volta dos problemas das instituições a que se pertence.
Por mais importantes que elas sejam, maior é a humanidade, a que nos cabe servir.
Partir, mais do que devorar estradas, cruzar mares ou atingir velocidades supersônicas, é abrir-se aos outros, descobri-los, ir-lhes ao encontro.
Abrir-se às ideias, inclusive contrárias às próprias, demonstra fôlego de bom companheiro.
Feliz de quem entende e vive este pensamento:
"Se discordas de mim, tu me enriqueces."
Ter ao próprio lado quem só sabe dizer amém,
quem concorda sempre, de antemão e incondicionalmente,
não é ter um companheiro,
mas, sim, uma sombra de si mesmo.
Desde que a discordância não seja sistemática e proposital, que seja fruto de visão diferente, a partir de ângulos novos, importa de fato em enriquecimento.
É possível caminhar sozinho.
Mas o bom viajor sabe que a grande caminhada é a vida e esta supõe companheiros.
Companheiro, etimologicamente, é quem come o mesmo pão.
Feliz de quem se sente em perene caminhada
e de quem vê no próximo um eventual e desejável companheiro.
O bom companheiro preocupa-se com os companheiros desencorajados, sem ânimo, sem esperança...
Adivinha o instante em que se acham a um palmo do desespero. Apanha-os onde se encontram.
Deixa que desabafem e, com inteligência, com habilidade, sobretudo, com amor, leva-os a recobrar ânimo e voltar a ter gosto pela caminhada.
Marchar por marchar não é ainda verdadeiramente caminhar.
Caminhar é ir em busca de metas, é prever um fim, uma chegada, um desembarque.
Mas há caminhada e caminhada.
Para as Minorias Abraâmicas, partir, caminhar, significa mover-se e ajudar muitos outros a moverem-se no sentido de tudo fazer por um mundo mais justo e mais humano.



(D.HÉLDER CÂMARA. O DESERTO É FÉRTIL)

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Sementes....


LUZES DO ARREBOL.

 "Todas as flores do futuro estão nas sementes de hoje."


  Você pode ficar ai deitado entre reclamações, ou levantar-se e buscar uma nova solução, quem sabe inventar o que ainda não existe?.
SEJA PRINCESA OU SEJA LAVADEIRA...
Pode queixar-se da falta de emprego ou oportunidades, 
ou varrer a calçada,
lavar um carro, capinar uma grama, olhar os filhos das vizinhas, fazer um bolo e vender aos pedaços.
QUANDO EU ERA MENINO,VIA A LUA SAINDO...
Pode isolar-se do mundo, 
afundar-se na idéia de que ninguém te quer, ninguém te ama e acabar descobrindo depois de muito sofrer que quem não te ama é você mesmo, pode brigar com seus pais, achando que você sabe tudo, que tem consciência do que é certo ou errado e quebrar a cara para reconhecer que o tempo e a experiência contam muito nesta vida.
Pode abrir a boca para reclamar,ou dizer uma poesia que emocione, pode falar mal do governo, ou enviar uma sugestão que ajude na solução do problema, pode cruzar os braços, ou estender a mão para o aflito, pode negar a esmola, ou ceder um pedaço do seu pão, pode ficar doente de amor, ou dar o seu amor aos doentes nos hospitais, pode tentar o suicídio, 
ou pode encarar a vida de frente e mandar um recado para o Universo:
Eu sou parte de Deus, 
sou a própria vida e vou plantar agora uma semente de felicidade, mesmo que regada com minhas lágrimas.
E essa semente vai gerar uma árvore, 
que dará frutos amorosos da minha decisão de viver e ser feliz, 
de amar e ser amado, 
de dar mais que receber, 
de recomeçar mesmo quando tudo é negação, ainda assim eu vou lutar, 
AMANHECEU,PEGUEI A VIOLA...
PLANTE FLORES,PARA QUE VENHAM OS COLIBRIS

e quando a minha árvore morrer, deixará na terra, ao menos uma semente de esperança, esperança de quem entendeu que viver é o melhor presente,quando se vive o presente com a experiência do passado 
e a certeza do futuro que projetamos com as nossas atitudes de hoje. 


Paulo Roberto Gaefke 
FOTOS DE LEONE LACERDA.
direitos de uso a quem interessar possa.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Para os que virão (Thiago de Mello)
Como sei pouco
e sou pouco,
faço o pouco que me cabe,me dando inteiro.
Sabendo,que não vou ver o homem que quero ser.
Já sofri o suficiente para não enganar a ninguém: principalmente aos que sofrem na própria vida,
a garra da opressão, e nem sabem.
Não tenho o sol escondido no meu bolso de palavras.
Sou simplesmente um homem para quem já a primeira e desolada pessoa do singular
– foi deixando, devagar, sofridamente de ser, para transformar-se - muito mais sofridamente - na primeira e profunda pessoa do plural.
Não importa que doa:
é tempo de avançar de mão dada com quem vai no mesmo rumo,
mesmo que longe ainda esteja de aprender a conjugar o verbo amar.
É tempo sobretudo de deixar de ser apenas a solitária vanguarda de nós mesmos.
Se trata de ir ao encontro.
( Dura no peito, arde a límpida verdade dos nossos erros. )

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

 

Não estás deprimido, estás distraído.

(detalhe:eu,Leone...ja experimentei toda a lista abaixo!) 



Distraído em relação à vida que te preenche, distraído em relação à vida que te rodeia, golfinhos, bosques, mares, montanhas, rios.
Não caias como caiu teu irmão que sofre por um único ser humano, quando existem cinco mil e seiscentos milhões no mundo. 
Além de tudo, não é assim tão ruim viver só. 
Eu fico bem, decidindo a cada instante o que desejo fazer, e graças à solidão conheço-me. 
O que é fundamental para viver.
Não faças o que fez teu pai, que se sente velho porque tem setenta anos, e esquece que Moisés comandou o Êxodo aos oitenta e Rubinstein interpretava Chopin com uma maestria sem igual aos noventa, para citar apenas dois casos conhecidos.
Não estás deprimido, estás distraído.
Por isso acreditas que perdeste algo, o que é impossível, porque tudo te foi dado. 
Não fizeste um só cabelo de tua cabeça, portanto não és dono de coisa alguma. 
Além disso, a vida não te tira coisas: 
te liberta de coisas, 
alivia-te para que possas voar mais alto, 
para que alcances a plenitude.
Do útero ao túmulo, vivemos numa escola; por isso, o que chamas de problemas são apenas lições. 
Não perdeste coisa alguma: aquele que morre apenas está adiantado em relação a nós, porque todos vamos na mesma direção.
E não esqueças, que o melhor dele, o amor, continua vivo em teu coração.
Não existe a morte, apenas a mudança.
E do outro lado te esperam pessoas maravilhosas: Gandhi, o Arcanjo Miguel, Whitman, São Agostinho, Madre Teresa, teu avô e minha mãe, que acreditava que a pobreza está mais próxima do amor, porque o dinheiro nos distrai com coisas demais, e nos machuca, 
porque nos torna desconfiados.
Faz apenas o que amas e serás feliz. 
Aquele que faz o que ama, está benditamente condenado ao sucesso, que chegará quando for a hora, porque o que deve ser será, e chegará de forma natural.
Não faças coisa alguma por obrigação ou por compromisso, apenas por amor.
Então terás plenitude, e nessa plenitude tudo é possível sem esforço, porque és movido pela força natural da vida. 
A mesma que me ergueu quando caiu o avião que levava minha mulher e minha filha;
a mesma que me manteve vivo quando os médicos me deram três ou quatro meses de vida.
Deus te tornou responsável por um ser humano, que és tu. 
Deves trazer felicidade e liberdade para ti mesmo.
E só então poderás compartilhar a vida verdadeira com todos os outros.
Lembra-te: "Amarás ao próximo como a ti mesmo".
Reconcilia-te contigo, coloca-te frente ao espelho e pensa que esta criatura que vês, é uma obra de Deus, e decide neste exato momento ser feliz, porque a felicidade é uma aquisição.
Aliás, a felicidade não é um direito, mas um dever; porque se não fores feliz, estarás levando amargura para todos os teus vizinhos.
Um único homem que não possuiu talento ou valor para viver, mandou matar seis milhões de judeus, seus irmãos.
Existem tantas coisas para experimentar, e a nossa passagem pela terra é tão curta, que sofrer é uma perda de tempo.
Podemos experimentar 
 - a neve no inverno 
 - as flores na primavera, 
 - o chocolate de Perusa, 
 - a baguette francesa, 
 - os tacos mexicanos, 
 - o vinho chileno, 
 - os mares
 - os rios, 
 - o futebol dos brasileiros, 
 - As Mil e Uma Noites, 
 - a Divina Comédia, 
 - Quixote, 
 - Pedro Páramo, 
- os boleros de Manzanero 
- as poesias de Whitman; 
- a música de Mahler, 
- Mozart, 
- Chopin, 
- Beethoven; 
- as pinturas de Caravaggio, 
- Rembrandt, 
- Velázquez, 
- Picasso
- Tamayo, 
entre tantas maravilhas.
E se estás com câncer ou AIDS, podem acontecer duas coisas, e ambas são positivas:
se a doença ganha, te liberta do corpo que é cheio de processos (tenho fome, tenho frio, tenho sono, tenho vontades, tenho razão, tenho dúvidas)
Se tu vences, serás mais humilde, mais agradecido... portanto, facilmente feliz, livre do enorme peso da culpa, da responsabilidade e da vaidade,
disposto a viver cada instante profundamente, 
como deve ser.
Não estás deprimido, estás desocupado.
Ajuda a criança que precisa de ti, essa criança que será sócia do teu filho. 
Ajuda os velhos e os jovens te ajudarão quando for tua vez.
Aliás, o serviço prestado é uma forma segura de ser feliz, como é gostar da natureza e cuidar dela para aqueles que virão.
Dá sem medida, e receberás sem medida.
Ama até que te tornes o ser amado; 
mais ainda converte-te no próprio Amor.
E não te deixes enganar por alguns homicidas e suicidas.
O bem é maioria, 
mas não se percebe porque é silencioso.
Uma bomba faz mais barulho que uma caricia, porém, para cada bomba que destrói há milhões de carícias que alimentam a vida.
Se Deus possuísse uma geladeira teria a tua foto pregada nela. 
Se Ele possuísse uma carteira tua foto estaria nela. 
Ele te envia flores a cada amanhecer, a cada manhã. Cada vez que desejas falar Ele te escuta. 
Ele poderia viver em qualquer ponto do Universo, mas escolheu o teu coração. Encara amigo, Ele te ama.
Deus não te prometeu dias sem dor, 
riso sem tristeza, 
sol sem chuva. 
Porém Ele te dá força para cada dia, 
consolo para as lágrimas 
e luz para o caminho.
Não, … não estás deprimido, … estás distraído!


Facundo Cabral é compositor, poeta e jornalista argentino.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O ULTIMO VERÃO EM MARESIAS.



O sol se esconde, e o dia cansado se entrega diante da noite imensa.
Num canto do crepúsculo, os olhos voltados para o poente, pondero sobre a aridez dos caminhos por onde trilhei. Não sei se vou, não sei se fico.
Sobre a tarde que morre apenas deito o meu corpo cheio de perguntas e deixo-me envelhecer lentamente entre velhas anotações, discos e livros, dos quais não consigo me desfazer.
Escuro agora. A noite solta-me as mãos, os pés, mostra-me a partida e dá-me asas para voar dentro da névoa do passado. Sou livre então para correr, gritar e beijar a brisa, sou livre para penetrar a loucura, invadir as noites da minha adolescência e bater as minhas asas empalhadas além das estrelas.
Que me impede de ser um anjo doido e flutuar sobre as tardes coloridas da minha adolescência ? Que me impede de ser um anjo doido e procurar as respostas nas tardes ensolaradas daquele tempo que parecia sem fim ?
Uma música misteriosa me convoca. Parto sem medo.




Em casa os retratos e objetos da minha infância ainda estão espalhados pelas gavetas e armários da memória, preservando o mistério dos primeiros anos. Fotografias, livros, discos, revistas, ruas, não são apenas sombras, são objetos que reconstituem e moldam a transformação de meu rosto.
Durante o dia as portas e janelas todas abertas deixam entrar uma luz muita branca que ilumina por igual todos os mistérios, mas não os desvenda. Do lado de fora o grande areal branco e a velha casa de madeira ainda me espreitam, na medida em que vasculho os abismos da memória com um desenho de todo esse tempo nos bolsos, tentando descobrir o começo desta grande festa.




As gôndolas descem o Grand Canale, rumo ao poente. O pôr-do-sol é uma advertência e um aviso de morte que nunca enxergamos. Somos sempre felizes no último lugar onde estivemos, ou no próximo para onde vamos - só agora percebo isso.
O suor das máscaras do último carnaval de Veneza escorre por entre os meus dedos e lembro que estou em pleno processo de resgate da sucata do passado. Os farrapos de hoje, amanhã já serão apenas saudade.
O vinho acabou, a última gôndola já desapareceu no fim do canal, é hora de me despedir. Amanhã tomo um avião para Roma, só para assistir um show do Dire Straits. Em seguida retorno a Paris, walking in the wild west end, to meet my wild best friend.




Às vezes penso que não é o tempo que passa, somos nós que invadimos calendários e arrancamos dias, somos nós que construímos relógios e giramos os seus ponteiros enrugados, somos nós que inventamos minutos e carregamos horas dilaceradas em nossos bolsos vazios.
Às vezes me ocorre que não é o tempo que passa, somos nós que caminhamos para trás.




O céu derramou hoje um pouco de azul em meus olhos e as velhas ruas da infância morreram todas em mim.
Fui criança novamente, e vi o menino de calças curtas e suspensórios, descendo inutilmente a ladeira quando lá em cima já haviam lhe dito que ela rolara para o abismo. Vi o menino de pés sonhadores e cabelos despenteados descendo a velha rua da escola, os papagaios ainda enganchados nos fios, e os professores já escondendo a solução.
Começa a escurecer. O sol já se pôs por trás dos edifícios, o horizonte sangra novamente em escamas de nuvens, como nas tardes ensolaradas da minha adolescência, e vestido de solidão me integro na noite.


Dois homens, com cordas nas mãos, laçaram ontem o cãozinho que latia nas manhãs alegres da minha infância, e de repente o meu crepúsculo fez-se névoa e morte.
Mas uma música misteriosa salta agora das pautas negras da noite e faz dançar a nata das estrelas. Ressuscito então de incêndios que não chegaram a queimar e penetro esse mundo de mágicos.
A noite me oferece o punhal, a loucura e a angústia de ser livre. As estrelas me oferecem o ritmo, me dão o compasso deste meu cantar e o desespero de voar alto.
- Para que permanecer ?




Mais bonito que o teu sorriso, Marcela, somente a alegria dos papagaios coloridos que eu empinava nas manhãs alegres da minha infância.

Fechadas as portas e janelas da nossa casa, atravesso agora a moldura, como os outros. Do outro lado, frenéticos, as suas caras refletem em vitrais barrocos. Penetro a grande festa pelos lados, como quem entra em um cenário. E o meu cenário é cada vez mais o retrato de toda uma época, e a minha loucura a loucura de todo um tempo, de anjos e de doidos.
A noite finalmente solta-me as mãos, os pés, mostra-me o caminho, e dá-me asas para voar por dentro da névoa que eu mesmo criei. Estou livre para correr, gritar e beijar a noite, estou livre para penetrar a loucura, invadir a madrugada e bater as minhas asas empalhadas bem distante das pessoas comuns.
Uma música misteriosa me convoca. Vou começar a arrumar a minha mala de estrelas e me preparar para partir.

Agora que sei que tudo acabou, que aquilo não vai voltar mais, que a manhã que vem não vai levar facilmente a dor que a noite fez nascer, me vem a lembrança de uma palavra, a recordação qualquer de um olhar, de um gesto, e constato que ficaram faltando palavras, olhares, gestos...
Acordo sobressaltado no meio da noite, tateio na escuridão do quarto, mas só encontro o vazio de uma cama de hotel.
Um ruído de passos na calçada rasga o silêncio de uma noite antiga.

É tarde. As luzes de Paris adormecem nos braços da neblina.


Livro Tristessa,
Thomas G. Marasco


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