terça-feira, 27 de outubro de 2009

COMPENSAÇÃO



                                                            


Hoje eu quereria apenas abrir um álbum antigo de fotografias, onde não houvesse gente de olhos duros e mãos aduncas.


Onde umas boas senhoras pousassem no papel com delicadeza, não para sobreviverem eternamente, mas para mandarem seu retrato às amigas com finas letras de "sincera afeição".


Um álbum onde aparecessem uns bons velhotes que não faziam negociatas, que não sabiam multiplicar dinheiro, que usavam roupas desajeitadas, sofriam de reumatismo, liam Virgílio e Horácio, e não tinham medo dos fantasmas do porão.


De lá de dentro de seus retratos essas sombras estariam dizendo: "Meus filhos, nada disso vale a pena..." (e sabíamos que falavam de parentes sôfregos, ávidos de partilhas, uns querendo herdar as terras do morro; outros, a mata; outros, a várzea - todos vivendo já do testamento, antes mesmo da extrema-unção...)


Hoje eu quereria ficar folheando esse álbum, onde não desejaria encontrar aqueles herdeiros.


Hoje eu quereria ler uns livros que não falam de gente, mas só de bichos, de plantas, de pedras: um livro que me levasse por essas solidões da Natureza, sem vozes humanas, sem discursos, boatos, mentiras, calúnias, falsidades, elogios, celebrações...


Hoje eu quereria apenas  ver  uma flor abrir-se, desmanchar-se, viver sua existência autêntica, integral, do nascimento à morte, muito breve, sem borboletas ou abelhas de permeio.


Uma existência total, no seu mistério (e antes da flor? - não sei) (e depois da flor? -


não sei


Esta ignorância humana.


Este silêncio do universo.


A sabedoria.


Hoje eu quereria estar entre as nuvens, na velocidade das nuvens, na sua fragilidade, na sua docilidade de ser e deixar de ser.


Livremente. Sem interesse próprio.


Confiantes.


A mercê da vida.


Sem nenhum sonho de durarem um pouco mais, de ficarem no céu até o ano 2000, de terem emprego público, férias, abono de Natal, montepio, prêmio de loteria, discurso à beira do túmulo, nome em placa de rua, busto no jardim... (ó nuvens prodigiosas, criaturas efêmeras que estais no alto e não pretendeis nada, e sois capazes de obscurecer o sol e de fazer frutificar a terra, e não tendes nenhuma nem apego a esses acasos!)


Hoje eu quereria andar lá em cima nas nuvens, com as nuvens, pelas nuvens, para as nuvens...


Hoje eu quereria estar no deserto amarelo, sem beduíno, camelo ou rebanho de cabras:


no puro deserto amarelo onde só reina o vento grandioso que leva tudo, que não precisa nem de água, nem de areia, nem de flor, nem de pedra, nem de gente.


O vento solitário que vai para longe de mãos vazias.


Hoje eu quereria ser esse vento.



Cecilia Meireles